Funções de um professor
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Published: 2007 Mar
Date: 2019 Jun 10
Modified: 2022 Nov 15
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Philosophy
Summary
Mas, ao mesmo tempo, os governos perceberam quão fácil é, no decurso da instrução, inculcar crenças sobre matérias controversas e promover hábitos mentais que podem ou não ser inconvenientes para a sua autoridade. É por essa razão que, nos países civilizados, a defesa do Estado está tanto nas mãos dos professores como nas das forças armadas. Ora, excepto nos países totalitários, a defesa do Estado é algo de desejável e, assim sendo, o facto de a educação ser utilizada para esse fim não constitui, por si só, razão para críticas. A crítica só surge quando o Estado procura defender-se fazendo apelo ao obscurantismo e a paixões irracionais, métodos inteiramente desnecessários num qualquer Estado digno de defesa. No entanto, há uma tendência natural para a adopção desses métodos por parte daqueles que não têm conhecimento directo dos problemas da educação. Acredita-se com frequência que as nações se tomam mais fortes com a uniformidade de opinião e a supressão da liberdade. Do mesmo modo, ouve-se muitas vezes dizer que a democracia toma mais fraco um país em guerra, se bem que, em todas as guerras importantes desde 1700 para cá, a vitória tenha ido sempre parar às mãos do lado mais democrático. Na maior parte das vezes, a ruína das nações fica a dever-se, mais à Insistência numa uniformidade doutrinal acanhada, do que à livre discussão e à tolerância de opiniões divergentes. Em suma, os dogmáticos do mundo inteiro acham que, embora eles próprios sejam capazes de conhecer a verdade, os outros, se lhes fosse permitido ouvir os argumentos de ambas as partes, seriam levados a cair em falsas crenças. Trata-se de uma posição que conduz a uma de duas desgraças: ou há um grupo de dogmáticos que conquista o mundo e proíbe todas as ideias novas, ou, o que é pior ainda, grupos rivais conquistam regiões diferentes e pregam o evangelho do ódio uns contra outros. Na Idade Média verificou-se o primeiro destes males; durante as guerras religiosas, e de novo nos nossos dias, vigorou o último. O primeiro, faz com que uma civilização se tome estática; o segundo, tende a destruí-Ia completamente. Cabe ao professor ser a salvaguarda principal contra ambos .
Sabemos que o espírito partidário constitui um dos maiores perigos do nosso tempo. Sob forma de nacionalismo, conduz à guerra entre nações; sob outras formas, leva à guerra civil. Aos professores cabe manter-se fora da luta entre os partidos, procurando fomentar nos jovens hábitos de investigação imparcial, levando-os a julgar as questões pelos seus próprios méritos, a estarem prevenidos contra afirmações ex parte, aceites apenas pelo seu valor aparente. Não é legítimo esperar-que o professor elogie os preconceitos defendidos quer pelas massas, quer pela alta magistratura. A virtude profissional do professor deveria consistir em julgar com isenção todas as partes, num esforço para se elevar acima de toda a controvérsia, para se manter num nível de investigação desapaixonada e científica e, se alguém considerasse inconvenientes os resultados dessa investigação, deveria o professor ser protegido contra a má vontade dessas pessoas, a menos que se provasse que se entregava a uma propaganda desonesta pela disseminação de juízos cuja falsidade podia ser objecto de demonstração.
Contudo, a função do professor não é meramente a de mitigar o ardor das controvérsias em curso na sua época. Ele tem tarefas mais positivas e não poderá ser um grande professor se não estiver inspirado pelo desejo de as cumprir. Mais do que ninguém, os professores são os guardiões da civilização. Devem por isso estar intimamente conscientes do que esta é e empenhados em comunicar aos seus alunos uma atitude civilizada de respeito para com ela.